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Utilização da cana-de-açúcar na alimentação de vacas leiteiras

Saiba tudo sobre a cana-de-açúcar na alimentação de vacas leiteiras.

Os elevados índices produtivos e os altos teores de carboidratos fazem da cana-de-açúcar uma excelente fonte de alimento forrageiro. Porém, possui alguns limitantes como a baixa qualidade da FDN e a presença de fermentações indesejadas no material picado. Uma alternativa para esta limitação é o processo de ensilagem, que permite sua conservação e manutenção do valor nutritivo.

A cana-de-açúcar (Saccharum spp.) é oriunda do sudeste asiático, trazida para o Brasil ainda no período colonial, encontrando aqui condições muito favoráveis ao desenvolvimento da cultura. É cultivada principalmente nas regiões sudeste e nordeste, sendo na região Sudeste a maior concentração de indústrias produtoras de etanol. Vale ressaltar que sua alta produção de massa verde e elevada quantidade de carboidratos solúveis são muito importantes tanto para a indústria sucroalcooleira quanto para a alimentação animal.

Os elevados índices produtivos e os altos teores de carboidratos fazem da cana-de-açúcar uma excelente fonte de alimento forrageiro; porém, possui alguns limitantes como a baixa qualidade da FDN, que pode limitar a ingestão pelo animal, e a presença de fermentações indesejadas no material picado que acabam diminuindo a qualidade do alimento. Na alimentação animal ela é fornecida principalmente in natura, o que eleva os custos devido ao elevado gasto com mão de obra diária. Uma alternativa para esta limitação é o processo de ensilagem, que permite a conservação e manutenção do valor nutritivo da forragem da cana-de-açúcar na forma de silagem.

A utilização de aditivos durante o processo de ensilagem é importante, pois contribui diretamente para o bom estabelecimento da microbiota da silagem e estabilização rápida do pH e, consequentemente, melhor conservação.

Cana-de-açúcar

Pertencente à família Poaceae e gênero Saccharum spp., a cana-de-açúcar é uma das forrageiras mais abundantes no Brasil, com maior parte da produção voltada para a indústria sucroalcooleira. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB (2015), o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, com produção estimada em 655,13 milhões de toneladas, em área cultivada de aproximadamente 8,95 milhões de hectares, com produtividade média de 72 toneladas de MV ha-1.

A produção de cana-de-açúcar é, em sua grande maioria, utilizada na indústria sucroalcooleira, enquanto na alimentação animal é utilizado aproximadamente 10%. O colmo é a parte da planta de maior interesse, pois nele se encontra maior concentração dos carboidratos solúveis. Eles representam aproximadamente 80% da parte aérea da planta, sendo almejado tanto pela indústria quanto para a nutrição animal. As folhas da cana-de-açúcar apresentam maior FDN de baixa qualidade e baixos níveis de carboidratos solúveis. Nesse sentido, na produção de açúcar e álcool, a principal característica avaliada para estimar a qualidade da cana-de-açúcar é o grau Brix, que é a concentração dos carboidratos solúveis presentes no colmo. Quanto à planta utilizada para alimentação animal, leva-se em consideração a produção de matéria verde total, a qualidade da fração fibrosa e a concentração dos carboidratos solúveis.

A cana-de-açúcar apresenta um potencial forrageiro, pois possibilita sua utilização após considerável período de tempo depois de sua maturação, além de elevada produtividade em função da área e baixa necessidade de adubação e irrigação, o que garante baixos custos de produção.

Uso na alimentação de bovinos leiteiros

A cana-de-açúcar é uma das formas mais difundidas como meio de suplementação para alimentação animal durante o período seco do ano. O motivo deve-se à sua grande capacidade de produção de MS (34,86 a 40,39 toneladas de cana-de-açúcar por hectare) e ponto ideal para colheita no período da seca, no qual há maior escassez de alimento para os animais e baixo desenvolvimento das forrageiras.

O aumento dos teores de FDN da cana reduz significativamente a fração digestível para os ruminantes, acarretando perdas quanto à qualidade do alimento.

A FDN de baixa qualidade presente na cana-de-açúcar ocasiona retenção de fibras indigestíveis no rumem, resultando em perdas produtivas e nutricionais, pois os animais passam a reduzir a taxa de ingestão de alimento. Estes fatores implicam na necessidade da retirada da folha e palha da cana antes do fornecimento, visando a redução dos níveis de FDN do alimento, visto que as folhas apresentam elevada concentração de fibras de baixa qualidade, se comparadas ao colmo. A retirada deste material pode comprometer o rendimento e acarretar em grandes perdas ao produtor, pois as folhas representam aproximadamente 20% da parte aérea da planta.

A grande desvantagem da cana-de-açúcar em relação às outras espécies forrageiras é o baixo teor de proteína bruta (PB).

O processo de corte e fornecimento diário de cana fresca aos animais já é amplamente conhecido, entretanto, possui a grande desvantagem pela demanda de mão de obra para o corte, picagem e fornecimento, além de perdas ocasionadas por fermentação dos carboidratos solúveis após o corte. Deste modo, a ensilagem da cana é alternativa para facilitar o manejo.

Estudos ressaltam a forma de fornecimento da cana-de-açúcar na inclusão de dietas para vacas leiteiras que não influenciaram significativamente a produção de leite e, ao comparar com alguns tipos de silagem, obtiveram resultados satisfatórios, atingindo a produção média esperada, inclusive raças de maior potencial leiteiro, como as da raça Holandesa. Além disso, vacas tratadas com 50% de silagem, apresentaram média de produção de 11,87 kg/dia, sendo que os mesmos animais tratados com silagem de milho apresentaram produção de 14,5 kg/dia. As quantidades de cana fornecida variavam em função da ingestão diária dos animais, sendo observados valores de inclusão na dieta que variavam entre 33,3 e 100% do volumoso. Nesse sentido, na dieta contendo 100% do volumoso de cana-de-açúcar, atingiu-se produção média de leite de 19,7 Kg, constatando a potencialidade da silagem de cana na alimentação de animais de alta produção.

Silagem de cana

Durante o processo de ensilagem ocorre a fermentação dos carboidratos solúveis presentes na cana-de-açúcar, podendo ocasionar grande, perdas por meio de fermentação alcoólica, ou ocasionar a conservação da silagem por meio da fermentação homolática, devido à produção de ácido lático pelas bactérias ácido-láticas.

O processo de ensilagem da cana-de-açúcar pode reduzir a porcentagem de MS e elevar as concentrações de FDN desta forrageira, mas a adição do milho triturado com palha e sabugo recupera estes valores e, juntamente, com a adição de ureia, aumenta o teor de PB.

Trabalhos mostram que a substituição de silagem de milho por cana para vacas com produção de leite de 22 kg/dia foi satisfatória em até 40% do volumoso, e que a fração fibrosa da cana influencia diretamente no tempo de passagem do alimento no trato intestinal, devido à pouca digestibilidade, o que acarreta em redução no consumo de alimento pelo animal.

Aditivos químicos

Os aditivos químicos são testados na busca de produtos com menores custos e que proporcionem o maior aproveitamento da silagem de cana-de-açúcar.

A adição entre 1% a 5% da matéria natural de NaOH reduziu significativamente a produção de etanol e aumentou a produção de ácido lático, o que melhorou a estabilidade do material ensilado.

Já a adição de calcário e cal virgem 0,5 a 1%, em função na matéria verde de cana fornecida ao animal, não influenciaram na ação dos aditivos biológicos utilizados nas silagens, mas a aplicação destes na cana in natura aumentou o valor nutritivo da silagem e a redução da FDN.

A utilização de 1,5% de ureia mais 4% de milho foi eficiente no controle do desenvolvimento de leveduras, beneficiando as bactérias ácido-láticos e a conservação da silagem.

A utilização de 2% do peso de cana a ser fornecido aos animais de CaO reduziu os custos e as perdas por fermentação alcoólica e aumentou a hidrolise da fração fibrosa, resultando em maior disponibilização de nutrientes para os animais. Também foi testada a eficiência da queima da cana-de-açúcar antes da ensilagem, o que ocasionou grande perda quanto à matéria seca e PB.

Aditivos microbianos

Encontram-se disponíveis no mercado uma série de inóculos isolados para promover a fermentação lática e acética. Entre os mais utilizados estão as bactérias heterofermentativas, que durante o seu processo metabólico produzem os ácidos lático e acético. O principal representante do grupo é o Lactobacillus buchneri.

O processo fermentativo é resultado da soma de condição de anaerobiose, substrato de boa qualidade e população ideal de bactérias ácido láticas, garantindo a boa conservação da silagem e a obtenção de alimento de melhor qualidade. As inclusões dos aditivos microbianos visam a redução da fermentação alcoólica ocasionada por microrganismos aeróbios, e a redução da produção de etanol na silagem, além de evitar o desenvolvimento dos microrganismos anaeróbios indesejáveis, que podem acarretar danos na qualidade da silagem.

As bactérias ácido láticas são muito importantes para a estabilização do pH da silagem e conservação da mesma após abertura do silo (estabilidade aeróbia). O principal representante do grupo é o L. Buchneri, sendo o mais utilizado na fermentação de gramíneas.

A adição apenas de L. buchneri na proporção de 3,6 x106 ufc/g de forragem não teve bom resultado quando aplicado isolado na silagem, mas quando inoculado na mesma concentração com adição de 1 x 106 ufc/g (MV) de Lactobacillus plantarum, observou-se menor perda por fermentação alcoólica.

Ao comparar silagens feitas com inóculos isolados, sendo estes, L. buchneri, L. brevis, L. plantarum, L. paracasei e três Lactobacillus comerciais, observou que as silagens contendo L. bucheneri apresentaram rápida estabilização do pH e rápida estabilização da fase aeróbia da silagem, resultando em maior conservação e melhor qualidade nutricional.

Fonte: Revista Leite Integral, Neyton Carlos da Silva

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