AgriculturaEconomia

Aroma tipo exportação

Em pouco mais de uma década, a cafeicultura da região das Matas de Minas, em Minas Gerais, tornou-se referência em grãos de alta qualidade, comparados aos melhores do País.

O agrônomo Sérgio Cotrim D’Alessandro, 50 anos, da fazenda Cotrim, no município de Manhumirim, representa a terceira geração de uma família de produtores de café das Matas de Minas, região composta por 63 municípios, situada em área de Mata Atlântica, no leste do Estado de Minas Gerais. Dos 150 hectares da propriedade, a plantação se estende por metade da área. A outra é tomada por mata nativa muito bem preservada. D’Alessandro, que produz em alguns talhões até 100 sacas por hectare, tem sido um assíduo fornecedor para a italiana Illy Caffè, uma das marcas mais prestigiadas do mundo. Grãos de qualidade superior são ouro para a empresa, que se dispõe a pagar muito além do que o mercado da commodity alcança. “Graças à qualidade do nosso grão, fiz contrato futuro com preço definido até 2021 com a Illy Caffe”, diz D´Alessandro.

“Consegui travar a saca em US$ 220.” No mês passado, o preço de uma saca convencional era de US$ 130, valor 40% inferior. Mas na região das Matas de Minas não é somente D’Alessandro que está de olho nas boas oportunidades do mercado internacional. No dia 19 de fevereiro, um acontecimento inédito movimentou o sítio Bela Vista, em Alto do Jequitibá, a 11 quilômetros de Manhumirim. O sítio pertence ao administrador carioca Alexandre de Andrade Emerich, 42 anos, que há 24 anos cultiva o grão. Naquela data, pela primeira vez, um produtor das Matas de Minas embarcou para a Europa 500 sacas de 30 quilos de um tipo de café muito especial. Nas sacas estava estampado o selo de origem Café das Matas de Minas. O destino foi Portugal, país que movimentou € 556 milhões em café, em 2017, e onde o consumo da bebida mais tem crescido no continente europeu. No país há uma cafeteria para cada 160 habitantes, ante a média europeia de um estabelecimento para 400 habitantes. “Precisamos consolidar os cafés diferenciados no mercado externo, para não ficarmos reféns dos cafés commodities”, diz Emerich. As negociações com os portugueses começaram em 2015 e valeram a pena. “Consegui um preço 50% acima do valor da commodity pelo meu café com selo”, afirma Emerich. “E já estou negociando a safra que será colhida de julho a outubro.” Quando vendeu a sua produção, o café commodity estava saindo por R$ 500 a saca.

Negócio de família: o café sustenta os Oliveira há quatro gerações, mas foi nos últimos anos que o grão especial começou a mudar suas vidas para melhor (Crédito:Claudio Gatti)

Para D’Alessandro, Emerich e os demais produtores das Matas de Minas, o selo que foi lançado no início de 2018 para mostrar a origem do grão é um divisor de águas, fruto das transformações pelas quais vêm passando as suas lavouras, em busca de gestão, mercado e qualidade. Nos últimos 15 anos, a cafeicultura tem desempenhado dois importantes papéis na região das Matas de Minas: ela passou a fixar o jovem no campo, mostrando que o caminho da qualificação do setor pode dar bons frutos.

Na região estão 63 municípios com uma característica em comum: eles estão rodeados por Mata Atlântica, em áreas de montanhas de até 1,2 mil metros de altitude. São ideais para o café do tipo arábica, na medida para seduzir um consumidor exigente e interessado no cultivo sustentável daquilo que vai para a sua mesa. De acordo com D’Alessandro, que também é o presidente do Conselho das Entidades do Café das Matas de Minas, mentora do selo, é essa a alavanca que está mobilizando produtores e entidades para vender o grão certificado a compradores dos Estados Unidos, do Japão e de países europeus. “Queremos exportar cada vez mais café de qualidade, em lotes separados e com selo de origem Matas de Minas”, diz D’Alessandro. “Estamos engatinhando, mas aprendendo rapidamente.”

O Conselho das Entidades do Café das Matas de Minas é composto por 15 membros, entre cooperativas, sindicatos rurais e associações. Também há 12 parceiros, entre entidades de pesquisa, universidades e órgãos de assessoria ao produtor. Como é o caso do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Aliás, a ideia de qualificar a região produtora com um selo de procedência nasceu justamente no Sebrae Minas, em 2011. “Temos que sair definitivamente do café commodity para o café xícara especial, de nível superior”, diz Ereni Emerick Constantino, analista do Sebrae no município de Manhuaçu, também na região das Matas. “Por isso, estamos organizando os produtores para abrir mercados.” Para ela, os cafeicultores da região têm capacidade de produzir grãos acima de 80 pontos. A métrica que vai até 100 pontos é utilizada em todo o mundo pela Specialty Coffee Association, com sede na Califórnia, para avaliar dez atributos dos grãos, entre eles aroma, uniformidade, doçura, acidez e ausência de defeitos.

O café é um patrimônio na região das Matas de Minas. Somente em Manhuaçu há 15 armazéns e tudo gira em torno da produção cafeeira: o comércio, os serviços e as indústrias de máquinas e implementos. Na região, 23 tradings compram 150 mil toneladas de grãos diretamente do produtor, volume equivalente a 50% da produção. Na disputa pelos melhores cafés estão grupos gigantes como o indiano Olan, o francês Louis Dreyfus, o espanhol Eisa, o alemão Stockler, a joint venture brasileira-israelita Três Corações, além de grandes empresas brasileiras, como a Atlântico Coffee, do empresário Ricardo Tavares, e a Guaxupé Exportadora, do grupo Olavo Barbosa. “É inegável o impacto do café na comunidade, nas vidas das pessoas da zona urbana e da zona rural”, afirma D’Alessandro, do Conselho das Entidades. “A riqueza da cafeicultura transformou a região.” Agora, com o selo Café das Matas de Minas, os produtores acreditam que poderá haver mais governança na relação com essas empresas, ou mesmo a independência na venda do grão. Não por acaso, desde 2012, já foram investidos R$ 2,6 milhões na elaboração do selo, sendo 70% do Sebrae e 30% através do Conselho das Entidades. O projeto vem capacitando e orientando os produtores, que não são poucos. Ligados ao conselho estão 28,8 mil cafeicultores que cultivam 220 mil hectares. Mas o total das lavouras na região é de 275 mil hectares, onde há 36 mil agricultores do grão. O Valor da Produção desse grupo foi de R$ 14 bilhões em 2016, último dado disponível no IBGE. Mas a maior parte deles, 80%, possui menos de 20 hectares. Essa massa de minúsculos agricultores produz 308 mil toneladas por safra, ou 5,1 milhões de sacas, que representam 24% da produção mineira.

A atividade cafeeira é a responsável pelo sustento de famílias como a Oliveira, da fazenda Varinha, em Manhuaçu. São 23 hectares, dos quais nove hectares de café especial. O patriarca Pedro Oliveira e os irmãos Celso, Ecirlei, Renato e Pedro Junior fazem parte da Cooperativa Produtos Agrícolas do Povo que Luta (Coorpol), em Manhuaçu, criada no início dos anos 2000. No ano passado, a Coorpol processou cinco mil sacas de 60 quilos e café de seus 80 cooperados, exportadas como fairtrade. No caso, o comprador garante um preço mínimo e uma bonificação, conhecida como prêmio do comércio justo. Para criar uma diferenciação no mercado, em 2017, a cooperativa criou a marca Virada das Montanhas. “O café é um excelente negócio”, afirma o produtor Celso Oliveira. “Dá para viver bem com a lavoura.” Em 2015, Oliveira ficou em segundo lugar em um concurso de cafés especiais, promovido pela Coorpol. Em 2016, alcançou a mesma posição no concurso estadual. Os especiais já representam 20% de sua colheita anual de 450 sacas. “Antes, a produção era vendida como commodity”, afirma. “Depois do prêmio, o negócio melhorou muito.” Para o filho Marcelo Augusto, de apenas 11 anos, o pai é o seu herói. Ao ser indagado o que será na vida, quando crescer, o menino não se faz de rogado. “Primeiro, eu quero ser grande”, diz ele “Depois, quero ser um grande produtor de café.”

Foi a impossibilidade de mecanização, técnica que ganhou fôlego no País a partir dos anos 2000, que abriu essa perspectiva de futuro em uma região de relevo acidentado como é a Matas de Minas. A consolidação das áreas dos cooperados da Cooperativa da Região de Lajinha (Coocafé), foi fruto dessa reforma agrária natural. “Com a impossibilidade de mecanização, os grandes produtores venderam as suas terras de forma fracionada”, diz o agrônomo Pedro Antonio Silva Araújo, diretor de produção da Coocafé. “Em Lajinha, um cafeicultor vendeu uma área de mil hectares para 100 famílias.” Hoje, os 9,3 mil cooperados da Coocafé produzem 500 mil sacas por ano, das quais 80 mil são exportadas para a Alemanha, para a Inglaterra e para a Irlanda com o selo fairtrade. A produtividade dos cooperados é de 35 sacas por hectare, ante a média nacional de 24 sacas por hectare.

É a mão de obra familiar que dá ritmo às lavouras. Nas Matas de Minas, cerca de 90% da colheita é manual, o equivalente a 295 mil toneladas por safra. De acordo com Vanusia Nogueira, diretora-executiva da Associação Brasileira de Cafés Especiais (da sigla em inglês, BSCA), o caminho da originação está corretíssimo. “Não dá para pensar em produzir commodity, a saída é trabalhar com produtos especiais”, afirma. “É a busca pela qualidade que tem resgatado o orgulho de trabalhar no campo, de cuidar da família, e isso facilita pensar no futuro das propriedades.” Vanusia conta que há cerca de dez anos a região das Matas de Minas era reconhecida como produtora de cafés de qualidade mediana e que hoje a história é outra. “Os produtores investiram na qualidade, estão fazendo a lição de casa e por isso vão exportar ainda mais cafés diferenciados.”

Fonte: Béth Mélo, da região das Matas de Minas (MG)

Tag

Notícias relacionadas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *